Dialética Conveniente: “Drogas”

Quando a discussão é sobre determinados assuntos polêmicos, os argumentos para sustentar as afirmações continuam os mesmos que eram utilizados há 10, 20, 30 anos atrás. Surgem novos fatos, novas provas e idéias para contestar aquele achismo das noções conservadoras, mas as pessoas teimam em continuar aceitando explicações convenientes.

Não bastasse ingorar os novos fatos trazidos à discussão, estes conservadores teimam em postular argumentos no foco errado do assunto, quando na verdade aquela idéia concebida há muito tempo já está ultrapassada, superada e refutada empiricamente. Muitas vezes a noção distorcida, fanática e cega de moral impedem que as pessoas aceitem a realidade e a verdade. Isso é o que eu percebo quando leio as matérias e os seus comentários nos meios de comunicação online a respeito do aborto, drogas e criminalidade.

O tema em pauta neste post é sobre as drogas, mais especificamente sobre este artigo da Carta Capital.

Argumentos utilizados pelos moralistas conservadores:

1 – Os usuários é que financiam o tráfico
2 – Descriminalizar a posse de pequenas quantidades é legalizar o varejo
3 – Usuário não é vítima
4 – Tem que atacar o tráfico nos morros e favelas (vide Complexo do Alemão)

Em primeiro lugar, desde que existe civilização existem as drogas. Elas são mais antigas que a religião católica por exemplo, então sempre existirão usuários, drogas e quem as provê, sejam as drogas lícitas compradas na farmácia – rivotril, prozac, zoloft, valium -, o áclool ou as ilícitas – maconha, cocaína, extasy, LSD. Não adianta negar a necessidade que o ser humano tem em consumir drogas legais, ilegais ou farmaceuticas.
– O álcool que papais e mamães oferecem aos filhos menores de idade, “só para dar uma provinha”, é a droga mais nociva segundo um estudo publicado no The Lancet: BBC.co.uk

A culpa pelo tráfico e violência não está nos morros, nas favelas e nos pequenos traficantes. Eles são apenas destino final de uma articulação que tem um nível de organização global, onde os líderes e responsáveis andam de ternos, carros de luxo e jatinhos, e que são protegidos pelos governos que eles ajudam a financiar e colocar no poder para proteger seus interesses. É uma articulação que envolve a indústria bélica, políticos, lobistas e os grandes traficantes que estão sempre de mãos dadas se ajudando. Estes “mercados” estão sempre estáveis, não importa a crise econômica que aflige o mundo!!!

Uma linha de pesquisa feita pela minha faculdade – Faculdade Nacional de Direito, UFRJ -, citada na matéria da Carta Capital e também já mencionada pelo STF, comprovou que mais de 60% dos presos por tráfico de drogas portavam pequenas quantidades. Não quero discutir aqui se estes presos eram “aviõezinhos” ou usuários, este é o ponto errado da discussão, isso é desviar a discussão para longe da raiz do problema.

Abramovay foi convenientemente demitido porque falou a verdade. Culpam o sujeito por querer “colocar em liberdade cerca de 40 mil pequenos narcotraficantes que se encontram presos”. Ora, há muito tempo que o sistema penal e carcerário brasileiro só apena os fudidos, as leis penais do Brasil foram feitas para punir os pobres. Legalizar o uso das drogas não vai mudar em nada o quadro de violência existente, talvez até melhore e diminua um pouco.

A política anti-drogas no Brasil deveria estar focada nos argumentos certos desta discussão. O trabalho da polícia (federal, civil ou militar) deveria ser com inteligência e não com caverões, tanques e helicópteros invadindo favelas. Se o investimento na luta contra as drogas fosse para desarticular os grandes produtores e fornecedores, os canais de entrada dos grandes carregamentos e seus facilitadores – lobistas, empresários “lavanderia”, autoridades e políticos – não haveria violência, e famílias que não possuem atenção básica do estado – oportunidades, saúde, segurança, transporte público e educação – não estariam no fogo cruzado servindo de prato cheio para o circo midiático.

É muito fácil e conveniente culpar os usuários e os fudidos que não tem nenhum amparo do estado – educação e oportunidades – como os responsáveis pelo tráfico e violência. A droga não tem culpa de nada, já está no mundo há muito tempo, os usuários tão pouco, pois TODOS usam algum tipo de droga. Os pequenos traficantes são tão vítimas do sistema quanto aqueles conservadores idiotas, que sem saber repetem como papagaios os discursos moralistas pré-definidos culpando estes e aqueles.

É mais fácil derrubar uma árvore cortando pela raiz do que querer derrubá-la arrancando folha por folha só com as mãos! Já passou da hora de mudar o foco da discussão em busca da raiz do problema. Acabar com a articulação dos poderosos que controlam o tráfico em larga escala, descriminalizar e criar políticas de redução de danos e educação à respeito do assunto, pois as drogas – todas elas – são caso de saúde pública e não de criminalidade.

Tá na hora de legalizar tudo!!!

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