Egoísmo Coletivo

O Paradoxo Individualismo-Coletivo

No último final de semana escrevi sobre a bagunça do sistema de transporte de ônibus na cidade do Rio de Janeiro – Desserviço Público – e como prometido, agora vou escrever a respeito do Trânsito e do Transporte Público de forma geral.

A lógica para a solução do trânsito nas grandes cidades é muito simples e eu nem precisei pesquisar muito para traduzir em 2 imagens e poucas palavras o que eu gostaria de expressar.

Considerando que cada carro anda sempre com 4 ocupantes, 10 carros poderiam ser substituídos por um ônibus pequeno com capacidade de 40 passageiros.

Em geral, os carros que circulam na cidade carregam apenas o motorista, se cada um desses 40 indivíduos decidir trocar o ônibus pelo carro, a situação é esta acima.

Não precisa ser muito inteligente para perceber que o problema do congestionamento no trânsito das grandes cidades está diretamente relacionado com o transporte Coletivo, né?

Agora, onde está o problema desta solução? Ou seria a solução deste problema? Ou seria, qual o problema do problema? Tem algum problema, afinal de contas? Problema, o que é isso?
R.: Bom, existem diversos motivos, ineficiência, péssima qualidade, cartel/máfia das concessionárias, individualismo, desinteresse, omissão do poder público, …, etc…

14 anos eu saí do Brasil pela primeira vez, fui conhecer Boston e Nova Iorque nos Estados Unidos. Fiquei impressionado com a qualidade do transporte coletivo naquele país, coisa de primeiro mundo! Não quero comparar o sistema de metrô, vou me ater apenas às comparações do sistema de ônibus, até porque se o que vou mostrar para vocês já é covardia, se eu fosse falar do metrô então…

Todos os ônibus nas 2 cidades eram equipados com:
1- ar-condicionado (fui no verão) e, logicamente, calefação; notem, são cidades que no verão sofrem menos com o calor do que nosso Rio 40° e ainda assim tinham refrigeração;
2 – suspensão a ar, para conforto dos passageiros, evitar o saculejo incômodo, curvas que nos jogam de um lado para o outro, e, pasmem, para facilitar o acesso dos idosos, pois este tipo de suspensão possibilita ao motorista aproximar o carro do meio fio e rebaixar o na altura adequada – eu vi isso ocorrer algumas vezes; e
3 – câmbio automático, para evitar essas arrancadas absurdas que sofremos diariamente e para estressar menos os motoristas. 

Nenhum deles tinha trocador – não que isso seja uma vantagem ou uma desvantagem – o sistema de cobrança deles, repetindo, há mais de 14 anos atrás, era por meio de um totem de meio metro de altura que aceitava um cartão magnético (tipo o nosso RioCard) ou moedas. Sim, bastava depositar um punhado de moedas totalizando algo em torno de U$ 1,50 (na época) no totem e, bingo, passagem paga!!! E o sistema do MetroCard já era integrado ao Metrô!!

Em Nova Iorque ainda tinha uma vantagem, que, honestamente, não me lembro se também tinha em Boston. Você tinha a faculdade de escolher entre, pagar cada passagem individual, carregar seu MetroCard assim como fazemos com o cartão Pré-Pago do Metrô Rio e, agora vem o esculacho – tenho até vergonha da existência do BilheteÚnico -, você tinha a opção de pagar um preço FIXO para o uso I-LI-MI-TA-DO por um determinado período: 1 dia, 7 dias ou 30 dias. Isso mesmo, o sujeito paga um valor fixo e roda de metrô e ônibus o quanto quiser naquele período! BilheteÚnico é uma PIADA!! Lá qualquer indivíduo pode comprar o MetroCard Ilimitado, aqui nós esbarramos na burrocracia para fazer um cadastro e poder usufruir do… deixa pra lá… é lógico que nem Prefeitura e muito menos as concessionárias tem interesse em facilitar ou baratear custos!

Notem que até o momento minha comparação se restringiu apenas à relação custo/benefício. Carros de LUXO versus Latões Turbinados e MetroCard Ilimitado versus BurrocraciaÚnica.

Vamos acreditar que tais diferenças não existem, que nossos ônibus são ótimos, que os motoristas são dígnos de conduzir Miss Daisy e que nosso RioCard e BilheteÚnico são simplesmente fantásticos! Ainda assim, esbarramos em outro problema:

Falta de Informação.

Vocês já ouviram falar no Princípio da Publicidade? Não? Uma pena, infelizmente não posso ficar discorrendo sobre o assunto, senão seriam mais 20 ou 30 linhas de texto, mas acredite no que vou dizer, é uma obrigação – prevista inclusive na Constituição Federal – tanto da Prefeitura, quanto das empresas concessionárias em fornecer ampla divulgação e facilidade no atendimento para esclarecer qualquer dúvida a respeito do serviço prestado. Este foi exatamente o problema relatado no post anterior, falta de organização na divulgação e no esclarecimento das informações a respeito do serviço prestado, sendo a informação disponibilizada, por meio de panfletos, cartazes nos pontos de ônibus, internet e teleatendimento, incompatíveis com a realidade do serviço prestado.

Notem que estou falando do “revolucionário”, da “solução”, do sistema do “futuro” – BRS – recém implementado em Copacabana – o bairro da Cidade do Rio de Janeiro mais conhecido no mundo! Mais uma observação interessante, a linha em questão é uma das que liga Copacabana à Barra da Tijuca, portanto 2 bairros nobres e de Classe Média, região onde, supostamente, o transporte público deveria funcionar muito bem para uma cidade que será sede da Final da Copa de 2014 e dos Jogos Olímpicos 2016.

Péssima qualidade

Se na Zona Sul do Rio de Janeiro a coisa já não funciona de maneira plena e satisfatória, agora imagina quem tem que lidar com as linhas de ônibus que servem os subúrbios, que transitam entre Central do Brasil e pegam Av. Brasil sentido Cafundó do Judas diariamente?

Imaginou?

Não, você não tem idéia! Eu não tenho a menor idéia! Aliás, enfrentei um ônibus uma única vez indo para Bangú e posso afirmar, se eu já achei horroroso o novo serviço prestado aqui em Copacabana, aquele que serve ao povão é mais do que caótico. É até difícil descrevê-lo de forma adequada. Não tem muito o que descrever na verdade, é total omissão do poder público.

Não preciso nem ir muito longe para tentar ilustrar o que estou querendo dizer, basta ver que 45%, sim, quarenta e cinco por cento da frota de ônibus da cidade foi reprovada conforme notícia divulgada no dia 24 de abril de 2011, isso tem pouco mais de 1 semana.
Fonte: G1

Enquanto isso no mundo do individualismo

Será que alguém pensa em tentar mudar isso?! Lógico que não! A cultura brasileira é totalmente umbiguista. Todo mundo sabe qual é a melhor solução, Transporte Público rápido, confortável, eficiente e barato. Mas ninguém quer deixar o seu carrinho na garagem para pegar um transporte coletivo. Aqui ocorre o que eu vou chamar de Paradoxo Individualismo-Coletivo.

Tem aqueles indivíduos que hoje andam pra cima e pra baixo enfrentando horas de congestionamento nos seus casulos ambulantes e refrigerados. Reclamam do Trânsito congestionado e do preço exorbitante dos combustíveis, mas ainda assim nem cogitam a possibilidade trocar seu mundinho pelo que é coletivo e continuam consumindo seus combustíveis superfaturados, ou hipertributados. Até se preocupam em fazer mobilizações de boicote em protesto aos preços dos combustíveis, em vão, lógico!

Normalmente, estes, a Classe Média, Media-Alta, têm algum poder de influência para tentar forçar o Poder Público a fazer algumas mudanças, mas ao invés disso, não abrem mão da sua “Zona de Conforto”. Pra quê o Governo vai abaixar o custo dos combustíveis se o consumo só aumenta mesmo com preços estratosféricos?!?

De outro lado, tem aqueles indivíduos que sofrem diariamente no caos dos Transportes Públicos – e aqui não estou falando apenas dos ônibus – e sonham em algum dia poder comprar seu pequeno casulo, novo ou usado, em prestações a perder de vista para fugir do martírio diário e se juntar àquele primeiro grupo. Estes se acomodam com a situação imposta – péssimo serviço do transporte coletivo – e apenas sonham em se juntar àqueles, entrando para o grupo de donos de casulos na mobilização por preços mais justos para os combustíveis. Não importa se no final das contas o custo diário com transporte seja o dobro ou triplo, desde que não tenha que se submeter ao Transporte Público, tá valendo! Hahahahaha…

Chega a ser triste ver as pessoas se “unindo” por causa do individualismo e ninguém se mobilizando para a solução coletiva.

Alguns vão argumentar “Ah! Eu quero ter o meu direito de ter um carro e usá-lo quando bem entender! É minha liberdade, meu direito!”. Sim filhão, seu direito de ir e vir, assim como o de todo mundo, só que se todos quiserem usar seus carrinhos para trabalhar diariamente, NINGUÉM sairá do lugar, a cidade vai parar por causa do trânsito e seremos obrigados a ter sistema de rodízio assim como já existe em São Paulo há mais de 10 anos!

Se a coisa continuar como está o caos será ampliado e existirão 3 classes: os fudidos continuarão fudidos, mas com um agravante, além de sofrer com o transporte público de péssima qualidade, aqueles que tiverem o ônibus como único recurso terão que enfrentar longos congetionamentos; a classe dos encasulados será subdividida em duas, aqueles têm apenas 1 casulo e aqueles que, tadinhos, serão obrigados a ter 2 casulos para poder fugir dos rodízios; mas nenhum deles estará livre de um problema comum, o congestionamento do trânsito.

Esta cultura individualista insana da Classe Média carioca – talvez até brasileira – está explícita e perfeitamente ilustrada no vídeo daquele Felipe Neto (Preço Justo). E aqui vai uma crítica a ele. O cara tem o poder de influência através deste meio de comunicação impressionante que é a internet e, bem ou mal, é um grande formador de opinião. No vídeo em questão os argumentos base utilizados até os primeiros 1:40min (hum minuto e quarenta segundos) são interessantes, mas pára por aí, porque dalí em diante o sujeito desanda a balbuciar asneiras desarrazoadas em um tom agressivo-revoltado para defender o direito dos indivíduos da Classe Média, que têm que pagar impostos “absurdos” por produtos importados. Ah coitadinho, ele quer comprar um PlayStation 3 pelo mesmo preço que é vendido em Miami!!! É um absurdo mesmo, coitado do bolso dele!!!

Agora falando no mesmo linguajar do F. Neto:
– Ah mermão! Puta que pariu!! Tú vai querer usar a omissão do poder público na correta aplicação das verbas como argumento para isentar de tributos produtos importados porque a classe média quer comprar um iPod ou um Blu-Ray mais barato?!? Então é isso? Já que saúde, transporte, educação e segurança não funcionam, então pelo menos deixa de aplicar os impostos pra gente poder comprar nosso iPad2 mais barato!?!
BOA CAMPEÃO!!! Que ótimo meio de influenciar aqueles indivíduos que te seguem!!!

Liberdade de expressão né? Fazer o quê? Cada um se manifesta, corre atrás, influencia e se revolta com aquilo que é de seu interesse imediato.

Os personagens

O Prefeito:
– não faz nada porque as Empresas Concessionárias bancam sua campanha política, são seus aliados;

O fudido:
– não consegue fazer nada porque não tem meios para tal, falta-lhe tempo, educação (conhecimento) e energia para lutar;

A Classe Média:
– até possue meios para exigir melhorias, têm alguma influência, têm conhecimento, tempo e são articulados, tendo em vista a posição social que sustentam, mas infelizmente estão mais preocupados em comprar o carro do ano e reclamar dos congestionamentos e do preço dos combustíveis. Não que ela tenha que largar seu carrinho em casa para se submeter ao péssimo transporte público, mas pelo menos faça uso do seu poder de influência para tentar mudar a situação para todos;

Máfia/Cartel
– E por último aqueles que estão satisfeitíssimos com o cenário atual, querem inclusive que esta situação se perpetue, as Empresas Concessionárias, que querem ter o menor custo possível para manter o serviço tendo o poder de cobrar na roleta a tarifa que quiserem! Assim fica fácil né?

A Solução

Difícil propor uma solução. Até porque o cenário em que vivemos não facilita, pelo contrário, até dificulta qualquer boa vontade na intenção de mobilizar nossa comunidade em prol da Coletividade. A situação apresentada estimula a iniciativa individual de resolver o problema imediato comprando um casulinho. Eu mesmo gostaria de ter o meu! Mas deixo claro desde já que o teria como artigo de luxo, usaria-o com bom senso, apenas para viagens e usos esporádicos e nunca para o dia a dia.

Se o Transporte Público Municipal conjugasse os fatores rapidez, baixo custo, conforto e eficiência, não haveria argumentos para justificar a falácia do direito à liberdade individual. Pelo contrário, argumentos como a sustentabilidade, redução da emissão de CO2, a melhora na fluidez do trânsito, a qualidade de vida, e diversos outros suprimiriam qualquer tentativa de justificar o uso inoportuno e egoísta do transporte particular em detrimento do coletivo.

Soluções baratas e de qualidade existem, Maglev Cobra, Metrô eficiente, corredores de ônibus, bilhetes integrados nos mesmos moldes do MetroCard de Nova Iorque, ônibus confortáveis, sistema de atendimento/reclamação imediato e de fácil acesso, perfeita distribuição das linhas e total integração entre todos os meios de transporte coletivo.

Imagina você querer chegar a qualquer ponto da cidade e ter a faculdade de escolher entre 2 ou 3 tipos (metrô, ônibus convencional, ônibus articulado ou Maglev) de transporte confortáveis, rápidos e por um preço baixíssimo? Seria fantástico! Não teria motivo plausível para tirar o carro da garagem, enfrentar trânsito, gastar com combustível e VagaCerta. E tem mais, pela “lei” da oferta e da procura a solução no transporte coletivo também é a solução para a redução no preço dos combustíveis, pois se o consumo reduzir vertiginosamente teremos muita oferta para pouca procura!!!

Mas como forçar a melhoria no transporte se aqueles que podem não fazem e aqueles que precisam não têm força para fazê-lo? Complicado não é? Mas será que se as pessoas começarem a pensar coletivamente não poderemos mudar esta situação? Uma coisa eu tenho certeza, não podemos nos acomodar.

Eu estou tentando, na medida do possível, fazer a minha parte! E você?

Anúncios

1 comentário

  1. Perfeito!

    O sistema de transporte público do Rio, e do Brasil (com uma leve exceção para Curitiba, eu disse LEVE, porque ainda não é grande exemplo), é RIDÍCULO!

    E por culpa de todos. Das autoridades públicas que exageram no descaso e no interesse em favorecer seus aliados. Da população que, alguns por não possuírem conhecimento, outros por não possuírem iniciativa, fica inerte apenas reclamando. Das concessionárias que abusam no preço e na péssima qualidade do serviço.

    Solução, temos sim! O texto mesmo já mostrou bons exemplos. E temos exemplos aqui perto. Como já disse, em Curitiba o transporte público é bem melhor que aqui. Não chega perto aos demonstrados no texto. Mas pelo menos na capital paranaense, você pode pegar até 03 ônibus por R$ 2,20!!! E ônibus de qualidade!!! Enquanto que aqui, pagamos R$ 2,40 e o absurdo R$ 3,10 para termos, respectivamente, péssimos ônibus e metrô!

    Solução existe, falta vontade e interesse em fazer!

    Enquanto isso, a gente tem que engolir trânsito caótico e metrô impossível de entrar!

    Enfim, comentário apenas para ratificar o excelente texto.

    Obrigado, egoísmo! Obrigado, autoridades!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s